• Conexão Sistêmica

Uma viagem profunda presente em todas as nossas almas

Conhecer e compreender os mitos que nos cercam pela nossa civilização ou pelos conteúdos que foram ressignificados pelos que nos antecederam e abrir a possibilidade de não repetir contextos por não ter consciência deles em nossas vidas.


Por Oswaldo Santucci


Eu nasci em São Paulo, sou um ser urbano que cresceu em uma parte da cidade meio interiorana naquela época, um bairro de ruas que iam virando alguma coisa diferente todo o dia pois estavam no começo da Avenida Santo Amaro e na visão das crianças tudo era mutação. Transformações sempre, mudanças e ajustes as novas ordens que no caos buscavam algum equilíbrio. As ruas de terra que viravam asfaltadas, os trilhos, os ônibus, táxis pretos de carrões americanos antigos, os novos táxis fuscas que traziam informações invisíveis da criatividade brasileira (que pejorativamente julgamos e chamamos de jeitinho) tirando o banco do passageiro para dar mais espaço, sem falar do top da criatividade que era a cordinha colorida que puxava a porta, enfim as possíveis percepções de tudo que estava a nossa volta mostrando a vida que mudava sempre a cada instante.


Ouvíamos falar ou víamos com os olhos da mente e da alma, usando nossas intimas conexões, com as “verdades” dos nossos sistemas, com nossa perspectiva na lealdade e na vontade de pertencer ao nosso núcleo, fazendo parte de algo que não sabíamos nem do que se tratava exatamente como as discriminações com os mais ricos e com os mais pobres, com os imigrantes, os que tinham emprego, com os excluídos, com o que parecia ser importante e sem saber “respirando” sempre este entorno conectados com um mundo invisível que movia a vida.

Assim existia uma São Paulo que crescia e ainda cresce, que é de um povo que trabalha, que não para nunca. Aquela São Paulo que “amanhece trabalhando” conforme a informação diária pelo radio da linda poesia musicada em homenagem a cidade.


Tinha mais, visualmente observávamos  os prédios. É verdade 50 anos depois ainda vemos nesta região uma casa que vira escombro e que vira um prédio e nem lembramos depois de uma semana exatamente o que mudou ou se algo realmente mudou. O que ocorria é que talvez fosse diferente é que naquela época era tudo mais lento e mais palatável e perceptível.


Voltando para 2020.

Estas primeiras semanas  têm sido interessantes. Estamos aqui no Instituto colocando o que planejamos para este trimestre em condições de atender o que queremos para os participantes de nossos cursos e workshops com a extensa agenda deste ano.

Inevitavelmente ao pensar neste trimestre minha mente fica ocupada com as conversas com a Habiba e o Cito nestes últimos 5 anos e  sobre o tema do nosso evento de março junto com eles aqui na Conexão Sistêmica -  as constelações do destino e o mito-drama como uma metodologia inovadora no trabalho com as constelações.



Com isto tudo fervilhando, no dia 19, um lindo domingo paulista, 6 dias antes do aniversário de nossa querida cidade, fomos Glaucia e eu ao Centro, via Estação São Bento com um amigo. Um passeio não planejado mas desejado por todos nós. Ele, um budista que conta suas experiencias recentes sempre bonitas e verdadeiras e juntos também vamos entrando em contato e trazendo a nossa perspectiva do trabalho das constelações que aliás  ele acha muito interessante e conhece pouco e assim seguimos. Todos também muito interessados em falar de uma viagem para a Turquia, as ligações entre ocidente e oriente e ouvir sobre o budismo e as práticas que podemos fazer no dia a dia de nossas vidas indo além da religião em si. Falamos das nossas ideias no trabalho com a perspectiva sistêmica com aquilo que chamamos no Instituto desde 2009 de “posturas e atitudes” para levar todo o arcabouço teórico e principalmente prático para todos os momentos de nossas vidas. Pronto, daí em diante não sabíamos mais o que estava por trás das nossas observações, histórias  e comentários. Budismo, conceitos e experiências dele como membro ativo do templo Zu Lai, das nossas com o trabalho com as pessoas no atendimento ou nos nossos eventos no Instituto e fora dele, tudo se misturando pois falávamos da vida, de como nossas posturas e atitudes são moldadas e como elas influenciam nossa felicidade, sensação de pertencimento e encontro com nossos propósitos.


Pensei: nossa que delicia estamos do jeito que tudo flui, conversado e “trabalhando” ideias, enfim partilhando saberes e movimentos na direção daquilo que consideramos importante para nossas vidas. Não precisou mais nada para retomar o assunto dos mitos que cercam e também moldam nossas posturas e atitudes. Uma influência que vem de dentro de nós, como as heranças biológicas, genéticas e sistêmicas, do pontos de vista de conjunto de “certos e errados” e do comportamento em si e as influências externas, em tese de fora de nós – as histórias, os fatos e o conjunto de suas interpretações através de cada geração, as estórias e seus ajustes por cada grupo que leva tudo isto adiante até chegar a nós.


Andando e conversando, observando tudo em volta, lembrei que fui as primeiras vezes ao centro nesta parte que estava domingo  quando comecei, depois dos 14 ou 15 anos, o meu trabalho como office boy e já me influenciava com os mitos desta cidade, sem saber é claro e sem saber também que influencia isto causaria em mim e nas dezenas ou centenas de jovens que como eu tinham este primeiro contato com o mundo do trabalho. Começando por baixo, como era a regra dos “menos favorecidos”. O fato é que estava embutido em tudo neste entorno as histórias dos imigrantes que vieram para cá e “fizeram a vida”, dos migrantes do nordeste e de tantas partes que vieram para cá fugindo da seca ou de algo, buscando sub emprego ( não sei se tudo isto era verdade mas eram as estórias) e tantas outras coisas e pessoas que víamos e ouvíamos as histórias que nos contavam ou com as quais nos conectávamos.


Nossas ligações com os mitos europeus na busca de uma terra nova onde seria possível viver em paz em um lugar acolhedor- sim temos no nosso “ar” a ideia de que São Paulo acolhe tudo e todos.


No caso da cidade de São Paulo talvez, um pouco diferente de outras partes de nosso país, era presente um outro mito bem americano: “começar a vida de baixo e virar o presidente da empresa”. Lá é mais ou menos assim- “começar lavando pratos e enriquecer”.


Assim seguimos o nosso passeio caminhando pelas ruas voltando para a igreja de São Bento para terminar o dia quando vi uma pessoa dormindo coberta por um pano e uma caixa de papelão que bem no meio destacava um “cuidado Frágil” em vermelho e seu companheiro de jornada da vida com uma vassoura que já não varria mais, tentando agir, dando um jeito na sujeira em volta e ensinado civilidade para todos. Pois é uma sujeira geral que tinha me chamado a atenção o tempo todo e que imediatamente me fazia pensar no descaso do poder público que não cuida ( aliás, talvez este seja uma crença forte em muitos de nós de que alguém tem que resolver, que o Estado fará um dia e etc.). Pois é, aquele “cabra” para imitar como ele chamou o parceiro dorminhoco – acorda aí, meu cabra! –  estava ensinando a quem quisesse aprender com a sua atitude e postura. Imediatamente esta influência me remeteu a minha infância.


Minha avó, muito presente na minha vida, eu até já contei em minhas aulas e palestras que ela foi a primeira professora de sistemas e de suas ligações dentro de cada um de nós. Ela tinha um ritual disciplinado e todos finais de semana era divertido - café com pão, levar as migalhas para os pardais no quintal de casa, água nas plantas, depois varrer o quintal, varrer a calçada em volta da casa e a rua num projeto interno dela de fazer pois ela mentia que eram importantes exercícios para dar energia. Eu não sabia se ajudava ou se olhava. Ajudar a vó podia pegar mal junto aos outros meninos da rua. Mas seguíamos o manual do domingo - banho, missa, cemitério e depois almoçar aquela massa que estava descansando desde sábado em uma gostosa oportunidade de saborear algo muito especial e que nos afastava do que ocorria entre os membros familiares, das tristezas escondidas e tudo o mais.


O sistema inteiro saboreava e aquecia algo que faltava, sem saber bem o que era. Um dia ela ficou na cama e eu sem saber o que dizer pois sentia que  a coisa estava estranha e somando minha vontade de vê-la “normal” de novo, perguntei: Vó, precisamos fazer exercício e emendei nesta – quem vai varrer tudo e deixar tudo limpo? Foi aí que surgiram várias coisas conectadas na resposta – verdades que só se contam no fim, conselhos, coração aberto para mostrar tudo e ainda emendar as conexões dos que vão seguir ( neste caso eu ) e que deviam conhecer as histórias e as regras verdadeiras. Tudo junto em uma fala. Assim, “na verdade não era exercício, eu aprendi que a vida deve ser cuidada e transformada por nós mesmos. Faça a sua parte, não espere que o Estado vá resolver ( isto é um mito bem dos italianos do fim dos anos 1800), faça você por você.”


Devo ter feito cara de não ter entendido e ela emendou – “Não espere, faça você a sua parte”. “E eu tenho que limpar pois o povo é porco” ( esta também é crença, quase um mito pois eu ouço nas falas e nos silêncios até hoje de muitas pessoas inclusive com o poder de fazer diferente em larga escala).


Para simplificar, em tom de despedida ela me disse: Tem vontade de ver limpo, limpe; algo te incomoda vai lá e resolve; enfim faça você o seu melhor e faça com alegria e encontre felicidade. Isto era verdadeiro, ela fazia tudo cantando e feliz apesar de tudo. O resumo era se quer ver limpo vai lá e faça. Quer ser alguém vá na vida e faça, alegre mas sem esperar que alguém tenha que resolver o que não esta bom para você e pode estar para os outros.


Saí deste transe e olhando para o presente, olhei para o “cabra” lembrei que nós somos a mesma alma com os mesmos aprendizados e também somos diferentes por um motivo básico -  ele estava fazendo e eu estava reclamando internamente antes de conhecê-lo.


Na direção da minha avó, aquela que na minha perspectiva vive dentro de mim,  eu pensei na frase que adoro e que aprendemos com a Karin Schöeber, nos nossos treinamentos de constelações e traumas expressos no corpo, que diz:


“Igual a você e também diferente de você, vó”.  – assim eu  disse com a voz interna:  “Estou aqui ouvindo mais uma vez e trazendo seus ensinamentos e me percebo fazendo muitas vezes exatamente como eu aprendi com você e me sinto com a liberdade e respeito de também fazer diferente,  adequando ao mundo de hoje e aos meus propósitos." Eu gostei!  E acho que ela e os Santucci’s também. Pelo menos é o que senti na hora e sinto  agora escrevendo.

Ah! Tem algo importante -  Antes de ir embora da cena fui lá perto dele que devia ter uns setentinha e perguntei, como você se chama? E ele respondeu Gê, e eu falei Gê de Geraldo? ( foi o único nome que veio na minha mente) e ele disse não de Genaro. E eu disse boa tarde Genaro, e pensei ele deve ser meu patrício – como os velhos italianos se chamavam para manter o bando de excluídos unidos na nova terra. Você precisa de algo? Ele rapidamente falou, de uma vassoura melhor, e eu pensei e agora, como saio desta?. Perguntei você quer dinheiro para comprar uma? Ele disse, já falei eu preciso de uma vassoura. Uma mulher que fazia parte de uma cena que estava sendo filmada na Rua XV de Novembro, limpando a rua para a produção, estava olhando minha desconcertante  cena e me deu uma vassoura – dá para ele moço. Assim o Genaro provavelmente um patrício pegou a vassoura  e foi cumprir sua tarefa de varrer, sem esperar um segundo.

Como São Paulo ele foi trabalhar.


Na volta para casa eu contei tudo o que pensei da cidade das conexões e minha viagem no tempo para minha mulher e o nosso amigo dentro do metrô, e conectando com o tema do evento que nosso amigo queria saber mais - Constelações do destino - Introdução ao mito-drama. Em casa aproveitei e mandei uns vídeos de São Paulo e sua formação e links sobre deuses e deusas e da história do mundo e das suas civilizações e os filmes da entrevista que fizemos com a Habiba que esta no nosso canal do youtube – o canal da Conexão Sistêmica. Fui chato demais mas ele gostou, mandou palmas pelo whats. Ele é muito culto e articulado sobre os temas da história e das civilizações e de saber que a Habiba é uma suíça que fala bem o português, seria a facilitadora ele ficou mais interessado ainda pois havia contado que ela conhece bem nosso país. No dia seguinte recebi uma mensagem dele.


“Valeu pelo dia e pela conversa mas quero dizer para vocês que entendi uma coisa sobre o  evento de março -  tem algo que é sistêmico e algo que vem também por um consciente maior do que o da família mas também tem uma influência do que temos a nossa volta, na cultura e nos pensamentos de todos. É isto? Além das histórias da civilização e de suas construções de comportamento tem as narrativas, os mitos que permanecem entre todos nós?”-.


Respondi o que sempre respondo nestas horas lembrando de Ariano Suassuna, eu não sei mas parece bom este caminho e quero aprender com isto que você disse. Penso que o mais importante é que entendamos que tem algo que nos conecta que é uma ligação com a postura de estar em um lugar de aprendiz no mundo e com a atitude de partilhar sempre já que assim crescemos.

Igual a inspiração do Genaro que me conectou com minhas essências, me fez lembrar que posso contar para os mais jovens da família, trazendo uma outra perspectiva ou para outras pessoas além da família e isto poderá fazer com que  que mais pessoas tenham a chance de ver algo muito especial com alguma ligação com  a sua própria história,  biografia  e enfim com  a conexão com o sistema (nossas cópias , nossas lealdades e nossas enormes vontades de pertencermos aos grupos).


Assim podemos todos entender que é possível aprender com nosso próprio caminho e agora temos a chance de entender mais uma parte que ligam todos aos processos autopoiéticos de construção e mudança no nosso processo e, como vamos aprender no evento, ainda pode caminhar para uma construção que o coletivo e a própria comunidade, em pequena ou grande escala, promova. Trazer mais e mais transformações individuais construindo uma nova história que poderá ser passada adiante como algo que pode ser assim “como sempre foi” e que também pode ser diferente.


Lembrando  não precisamos fazer o mesmo sempre ou ter que fazer totalmente diferente. Pois talvez com a dor e  com alegria da transformação, fazermos como nossos pais ( como na letra da música cantada magnificamente pela Elis Regina) e também diferente deles, respeitosamente.


Sabermos dos mitos, de sua existência para a humanidade, conhecê-los, conhecer e contextualizar as histórias e as versões dentro das nossas comunidades e até dentro da nossa família e trabalharmos a nossa liberdade interna para trazer e incluir tudo isto com a possibilidade de transformação individual e coletiva.

A possibilidade deste trabalho com a Habiba Kreszmeier e o Cito Hufenus da Suíça

em que iremos aprender como, junto com o trabalho sistêmico, poderemos crescer e desenvolver caminhos novos para cada um dos participantes e para os processos com nossos clientes pelo conhecimento deste novo processo.


A metodologia do mito-drama ancorada na constelação do destino e todos os exercícios sistêmicos nos farão sair no domingo com possibilidades novas para a conexão entre o sistêmico, o biográfico e as facetas de um mundo externo que influencia ativamente tudo que faz parte do nosso caminho em nossa forma de sentir, pensar e agir e portanto nas nossas posturas e atitudes diante da vida, da transformação na busca de mais autonomia para desfrutar da alegria, do encontro com nossos verdadeiros propósitos e com o “amar” tudo como é e pode ser.


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